É conhecido de todos que tudo pode
virar lixo, mas eu digo que também o lixo pode virar tudo. Em tempos de
reciclagem isso não é nenhum achado. Porém quando digo tudo, é tudo mesmo:
comida, transporte, remédio, instrumentos dos mais variados, cama e, acreditem,
até gente. Sim, dia desses vinha eu pela rua, alta madrugada, e vi um saco
enorme de lixo se mover. A princípio não acreditei, e concluí ser fruto de um
breve delírio causado pelo cansaço. Mais uns passos e escuto um “psiu!”. Não
tinha ninguém na rua, ninguém nas janelas das casas. Olhei para o lixo e ele se
levantou e veio caminhando na minha direção. Fiquei pasmo e imóvel. Ele disse
para eu não ter medo e que eu o escutasse, pois ele queria muito falar comigo.
Atrás dele havia um séquito de ratos, animais que por motivos que ainda não
descobri, me causam um pavor gigantesco. Todos eles usavam gravatinhas feitas
com restos de guardanapos de papel. Passado o primeiro susto pedi ao Sr. Lixo
que mandasse os ratos dar uma volta e expliquei o meu motivo. Ele então ordenou
que os roedores fossem dar uma volta e eles saíram todos em fila indiana
guinchando coisas uns para os outros. Passado o segundo susto, falei para o
lixo que era todo ouvidos. Antes de me falar as coisas mais maravilhosas e
inacreditáveis, de como chegara até ali, de seus antepassados e tudo mais,
tirou de dentro de si uma garrafa de plástico com um resto de cachaça.
Agradeci, mas falei que não estava bebendo e brinquei que esse encontro
insólito com um lixo falante poderia muito bem ser fruto dessa abstinência. Ele
riu e começou a falar. Não sei quantas horas fiquei ali ouvindo sua história e
a relação dos lixos com nós, humanos. Desde que o nomadismo foi acabando e os
homens começaram a se fixar em um mesmo local, plantar e criar animais, a
acumularem lixo, juntar bichos, até surgirem as primeiras doenças que até hoje
geram a má fama do lixo. Entendi que a coisa não era bem assim e que o lixo é
um filho nosso que criamos com desleixo, maus tratos e acabamos sempre deixando
na rua para que outros cuidem dele. Minutos antes do Sr. Lixo se disfarçar de
lixo comum no meio de outros lixos para poder ser carregado pelo caminhão até
um aterro sanitário ou um lixão para dar uma palestra para outros lixos que o
aguardavam, ele me agradeceu num tamanho nível emotivo que uma lágrima de chorume
rolou pelo seu rosto feito de pote de sorvete, vidro de remédio, pilhas, saco
de pão e mais outros resíduos que compunham sua matéria. Também não pude conter
a emoção e nos abraçamos. Fiquem mais uma vez perplexo, pois ele não tinha
cheiro algum. Quando seu transporte chegou, o homem o jogou para dentro do
caminhão e lá foi meu mais novo amigo rumo a sua palestra. Tive um certo pavor em pensar que além dele haviam outros lixos
gentes e que poderiam se rebelar contra nós, mas me aliviei pois se fossem guiados
pelo Sr. Lixo estaríamos a salvo. Continuei indo em direção a minha casa e lá
do final da rua um conhecido meu, humano, gritou pra mim: “Liiiiiiiiiixo!” que
é assim que eu e meus amigos carinhosamente nos chamamos e cumprimentamos.
.
Foto de Kathleen Kunath . Rodrigo Caffer [Ele]
terça-feira, 24 de março de 2015
sexta-feira, 20 de março de 2015
1ª Semana: Abstinências
Primeiramente quero explicar o porquê
deste novo blog. Todo mundo que me conhece sabe o quanto gosto de tomar uma
cerveja, seja no bar pra conversar, seja pra ouvir música, seja pra compor, enfim,
seja pra cerveja tô lá. Melhor, tava. Talvez eu tenha cometido alguns exageros,
admito. Meu fígado espartano também admitiu, mas meu coração, não. Falo do
coração físico, o músculo, não do coração metafórico das canções, dos sofreres,
dos quereres, dos rasgares e dos despedaçares. Fato é que entrei em fase de
abstinência, cortei o cigarro, cortei a bebida, mas ainda não cortei os pulsos.
E nem pretendo. Ordens médicas em minha atual conjuntura devem ser seguidas a
risca e assim estou fazendo. Agora de uma coisa podem ter certeza: viver nesse
mundo, sem drogas, não é para qualquer um. Para uma pessoa que sofre de ansiedade
múltipla dos órgãos como eu então é dose pra elefante, só que sem dose nenhuma.
Mas como diria o personagem suassuano, nunca fiquei sem beber, nunca fiquei sem
fumar, muito menos os dois ao mesmo tempo, mas se tem que ficar, eu fico. Isso
também tá parecendo frase de Imperador às margens do Ipiranga. Ipiranga que também
vinha sofrendo de abstinência de água, mas não resistiu e acabou tomando uma
overdose. Se bem que Ipiranga e “eu fico”
são dois eventos diferentes. Taí outro sintoma da abstinência: fala desorganizada
e ininteligível. Curioso é que assim que tenho visto as coisas nestes meus abstêmios
tempos, de forma desorganizada, ininteligível, em meio a alucinações táteis,
auditivas e visuais, e confesso que não sei se o surreal vem do meu olhar de
alucinação abstêmia ou se o surreal é o real enquanto sóbrio. Conclui cá com
meus botões que o mundo sofre de abstinência de várias coisas e que, portanto,
temos, eu e o mundo, uma coisa em comum. Pois meu blog será feito desse
material: as consequências de uma manifestação mais intensa e complicada de
abstinência também conhecida como Delirium Tremens. Semanalmente, até a última
semana do ano, entornarei textos sobre as minhas abstinências, as abstinências
do mundo ou sobre qualquer outra alucinação que minha caneta desejar que
apareça para evidenciar a estranheza do banal ou o banal da estranheza. Na
verdade que as minhas teclas desejarem, porque caneta seria complexo devido as
esporádicas tremedeiras. Vejam a bola de neve: uma abstinência de álcool, por
exemplo, pode causar uma abstinência de caneta, que pode causar uma abstinência
de papel, que pode causar uma abstinência de caderno, que pode causar uma
abstinência de papelaria, que pode causar uma abstinência de rua, que pode causar
uma abstinência de gentes, que pode causar uma abstinência de comida, que pode
causar uma abstinência de vida e por fim uma abstinência de abstinência. Creiam
que tudo isso pode passar pela cabeça de um abstêmio em questão de segundos e
ser a mola propulsora para a primeira dose. A Vida é um prato cheio pra isso. Mas
serei determinado e enfrentarei as abstinências e as surrealidades. Você lerá. Na
verdade é só sair pra rua e já estará lendo meu blog, porque existem coisas
muito mais surreais, delirantes, maravilhosas e assustadoramente alucinógenas
do que um elefante cor de rosa nos desvãos da existência.
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