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Foto de Kathleen Kunath . Rodrigo Caffer [Ele]

terça-feira, 24 de março de 2015

2ª Semana: Lixos




É conhecido de todos que tudo pode virar lixo, mas eu digo que também o lixo pode virar tudo. Em tempos de reciclagem isso não é nenhum achado. Porém quando digo tudo, é tudo mesmo: comida, transporte, remédio, instrumentos dos mais variados, cama e, acreditem, até gente. Sim, dia desses vinha eu pela rua, alta madrugada, e vi um saco enorme de lixo se mover. A princípio não acreditei, e concluí ser fruto de um breve delírio causado pelo cansaço. Mais uns passos e escuto um “psiu!”. Não tinha ninguém na rua, ninguém nas janelas das casas. Olhei para o lixo e ele se levantou e veio caminhando na minha direção. Fiquei pasmo e imóvel. Ele disse para eu não ter medo e que eu o escutasse, pois ele queria muito falar comigo. Atrás dele havia um séquito de ratos, animais que por motivos que ainda não descobri, me causam um pavor gigantesco. Todos eles usavam gravatinhas feitas com restos de guardanapos de papel. Passado o primeiro susto pedi ao Sr. Lixo que mandasse os ratos dar uma volta e expliquei o meu motivo. Ele então ordenou que os roedores fossem dar uma volta e eles saíram todos em fila indiana guinchando coisas uns para os outros. Passado o segundo susto, falei para o lixo que era todo ouvidos. Antes de me falar as coisas mais maravilhosas e inacreditáveis, de como chegara até ali, de seus antepassados e tudo mais, tirou de dentro de si uma garrafa de plástico com um resto de cachaça. Agradeci, mas falei que não estava bebendo e brinquei que esse encontro insólito com um lixo falante poderia muito bem ser fruto dessa abstinência. Ele riu e começou a falar. Não sei quantas horas fiquei ali ouvindo sua história e a relação dos lixos com nós, humanos. Desde que o nomadismo foi acabando e os homens começaram a se fixar em um mesmo local, plantar e criar animais, a acumularem lixo, juntar bichos, até surgirem as primeiras doenças que até hoje geram a má fama do lixo. Entendi que a coisa não era bem assim e que o lixo é um filho nosso que criamos com desleixo, maus tratos e acabamos sempre deixando na rua para que outros cuidem dele. Minutos antes do Sr. Lixo se disfarçar de lixo comum no meio de outros lixos para poder ser carregado pelo caminhão até um aterro sanitário ou um lixão para dar uma palestra para outros lixos que o aguardavam, ele me agradeceu num tamanho nível emotivo que uma lágrima de chorume rolou pelo seu rosto feito de pote de sorvete, vidro de remédio, pilhas, saco de pão e mais outros resíduos que compunham sua matéria. Também não pude conter a emoção e nos abraçamos. Fiquem mais uma vez perplexo, pois ele não tinha cheiro algum. Quando seu transporte chegou, o homem o jogou para dentro do caminhão e lá foi meu mais novo amigo rumo a sua palestra. Tive um certo pavor  em pensar que além dele haviam outros lixos gentes e que poderiam se rebelar contra nós, mas me aliviei pois se fossem guiados pelo Sr. Lixo estaríamos a salvo. Continuei indo em direção a minha casa e lá do final da rua um conhecido meu, humano, gritou pra mim: “Liiiiiiiiiixo!” que é assim que eu e meus amigos carinhosamente nos chamamos e cumprimentamos.



sexta-feira, 20 de março de 2015

1ª Semana: Abstinências



Primeiramente quero explicar o porquê deste novo blog. Todo mundo que me conhece sabe o quanto gosto de tomar uma cerveja, seja no bar pra conversar, seja pra ouvir música, seja pra compor, enfim, seja pra cerveja tô lá. Melhor, tava. Talvez eu tenha cometido alguns exageros, admito. Meu fígado espartano também admitiu, mas meu coração, não. Falo do coração físico, o músculo, não do coração metafórico das canções, dos sofreres, dos quereres, dos rasgares e dos despedaçares. Fato é que entrei em fase de abstinência, cortei o cigarro, cortei a bebida, mas ainda não cortei os pulsos. E nem pretendo. Ordens médicas em minha atual conjuntura devem ser seguidas a risca e assim estou fazendo. Agora de uma coisa podem ter certeza: viver nesse mundo, sem drogas, não é para qualquer um. Para uma pessoa que sofre de ansiedade múltipla dos órgãos como eu então é dose pra elefante, só que sem dose nenhuma. Mas como diria o personagem suassuano, nunca fiquei sem beber, nunca fiquei sem fumar, muito menos os dois ao mesmo tempo, mas se tem que ficar, eu fico. Isso também tá parecendo frase de Imperador às margens do Ipiranga. Ipiranga que também vinha sofrendo de abstinência de água, mas não resistiu e acabou tomando uma overdose.  Se bem que Ipiranga e “eu fico” são dois eventos diferentes. Taí outro sintoma  da abstinência: fala desorganizada e ininteligível. Curioso é que assim que tenho visto as coisas nestes meus abstêmios tempos, de forma desorganizada, ininteligível, em meio a alucinações táteis, auditivas e visuais, e confesso que não sei se o surreal vem do meu olhar de alucinação abstêmia ou se o surreal é o real enquanto sóbrio. Conclui cá com meus botões que o mundo sofre de abstinência de várias coisas e que, portanto, temos, eu e o mundo, uma coisa em comum. Pois meu blog será feito desse material: as consequências de uma manifestação mais intensa e complicada de abstinência também conhecida como Delirium Tremens. Semanalmente, até a última semana do ano, entornarei textos sobre as minhas abstinências, as abstinências do mundo ou sobre qualquer outra alucinação que minha caneta desejar que apareça para evidenciar a estranheza do banal ou o banal da estranheza. Na verdade que as minhas teclas desejarem, porque caneta seria complexo devido as esporádicas tremedeiras. Vejam a bola de neve: uma abstinência de álcool, por exemplo, pode causar uma abstinência de caneta, que pode causar uma abstinência de papel, que pode causar uma abstinência de caderno, que pode causar uma abstinência de papelaria, que pode causar uma abstinência de rua, que pode causar uma abstinência de gentes, que pode causar uma abstinência de comida, que pode causar uma abstinência de vida e por fim uma abstinência de abstinência. Creiam que tudo isso pode passar pela cabeça de um abstêmio em questão de segundos e ser a mola propulsora para a primeira dose. A Vida é um prato cheio pra isso. Mas serei determinado e enfrentarei as abstinências e as surrealidades. Você lerá. Na verdade é só sair pra rua e já estará lendo meu blog, porque existem coisas muito mais surreais, delirantes, maravilhosas e assustadoramente alucinógenas do que um elefante cor de rosa nos desvãos da existência.