Primeiramente quero explicar o porquê
deste novo blog. Todo mundo que me conhece sabe o quanto gosto de tomar uma
cerveja, seja no bar pra conversar, seja pra ouvir música, seja pra compor, enfim,
seja pra cerveja tô lá. Melhor, tava. Talvez eu tenha cometido alguns exageros,
admito. Meu fígado espartano também admitiu, mas meu coração, não. Falo do
coração físico, o músculo, não do coração metafórico das canções, dos sofreres,
dos quereres, dos rasgares e dos despedaçares. Fato é que entrei em fase de
abstinência, cortei o cigarro, cortei a bebida, mas ainda não cortei os pulsos.
E nem pretendo. Ordens médicas em minha atual conjuntura devem ser seguidas a
risca e assim estou fazendo. Agora de uma coisa podem ter certeza: viver nesse
mundo, sem drogas, não é para qualquer um. Para uma pessoa que sofre de ansiedade
múltipla dos órgãos como eu então é dose pra elefante, só que sem dose nenhuma.
Mas como diria o personagem suassuano, nunca fiquei sem beber, nunca fiquei sem
fumar, muito menos os dois ao mesmo tempo, mas se tem que ficar, eu fico. Isso
também tá parecendo frase de Imperador às margens do Ipiranga. Ipiranga que também
vinha sofrendo de abstinência de água, mas não resistiu e acabou tomando uma
overdose. Se bem que Ipiranga e “eu fico”
são dois eventos diferentes. Taí outro sintoma da abstinência: fala desorganizada
e ininteligível. Curioso é que assim que tenho visto as coisas nestes meus abstêmios
tempos, de forma desorganizada, ininteligível, em meio a alucinações táteis,
auditivas e visuais, e confesso que não sei se o surreal vem do meu olhar de
alucinação abstêmia ou se o surreal é o real enquanto sóbrio. Conclui cá com
meus botões que o mundo sofre de abstinência de várias coisas e que, portanto,
temos, eu e o mundo, uma coisa em comum. Pois meu blog será feito desse
material: as consequências de uma manifestação mais intensa e complicada de
abstinência também conhecida como Delirium Tremens. Semanalmente, até a última
semana do ano, entornarei textos sobre as minhas abstinências, as abstinências
do mundo ou sobre qualquer outra alucinação que minha caneta desejar que
apareça para evidenciar a estranheza do banal ou o banal da estranheza. Na
verdade que as minhas teclas desejarem, porque caneta seria complexo devido as
esporádicas tremedeiras. Vejam a bola de neve: uma abstinência de álcool, por
exemplo, pode causar uma abstinência de caneta, que pode causar uma abstinência
de papel, que pode causar uma abstinência de caderno, que pode causar uma
abstinência de papelaria, que pode causar uma abstinência de rua, que pode causar
uma abstinência de gentes, que pode causar uma abstinência de comida, que pode
causar uma abstinência de vida e por fim uma abstinência de abstinência. Creiam
que tudo isso pode passar pela cabeça de um abstêmio em questão de segundos e
ser a mola propulsora para a primeira dose. A Vida é um prato cheio pra isso. Mas
serei determinado e enfrentarei as abstinências e as surrealidades. Você lerá. Na
verdade é só sair pra rua e já estará lendo meu blog, porque existem coisas
muito mais surreais, delirantes, maravilhosas e assustadoramente alucinógenas
do que um elefante cor de rosa nos desvãos da existência.
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