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Foto de Kathleen Kunath . Rodrigo Caffer [Ele]

sexta-feira, 20 de março de 2015

1ª Semana: Abstinências



Primeiramente quero explicar o porquê deste novo blog. Todo mundo que me conhece sabe o quanto gosto de tomar uma cerveja, seja no bar pra conversar, seja pra ouvir música, seja pra compor, enfim, seja pra cerveja tô lá. Melhor, tava. Talvez eu tenha cometido alguns exageros, admito. Meu fígado espartano também admitiu, mas meu coração, não. Falo do coração físico, o músculo, não do coração metafórico das canções, dos sofreres, dos quereres, dos rasgares e dos despedaçares. Fato é que entrei em fase de abstinência, cortei o cigarro, cortei a bebida, mas ainda não cortei os pulsos. E nem pretendo. Ordens médicas em minha atual conjuntura devem ser seguidas a risca e assim estou fazendo. Agora de uma coisa podem ter certeza: viver nesse mundo, sem drogas, não é para qualquer um. Para uma pessoa que sofre de ansiedade múltipla dos órgãos como eu então é dose pra elefante, só que sem dose nenhuma. Mas como diria o personagem suassuano, nunca fiquei sem beber, nunca fiquei sem fumar, muito menos os dois ao mesmo tempo, mas se tem que ficar, eu fico. Isso também tá parecendo frase de Imperador às margens do Ipiranga. Ipiranga que também vinha sofrendo de abstinência de água, mas não resistiu e acabou tomando uma overdose.  Se bem que Ipiranga e “eu fico” são dois eventos diferentes. Taí outro sintoma  da abstinência: fala desorganizada e ininteligível. Curioso é que assim que tenho visto as coisas nestes meus abstêmios tempos, de forma desorganizada, ininteligível, em meio a alucinações táteis, auditivas e visuais, e confesso que não sei se o surreal vem do meu olhar de alucinação abstêmia ou se o surreal é o real enquanto sóbrio. Conclui cá com meus botões que o mundo sofre de abstinência de várias coisas e que, portanto, temos, eu e o mundo, uma coisa em comum. Pois meu blog será feito desse material: as consequências de uma manifestação mais intensa e complicada de abstinência também conhecida como Delirium Tremens. Semanalmente, até a última semana do ano, entornarei textos sobre as minhas abstinências, as abstinências do mundo ou sobre qualquer outra alucinação que minha caneta desejar que apareça para evidenciar a estranheza do banal ou o banal da estranheza. Na verdade que as minhas teclas desejarem, porque caneta seria complexo devido as esporádicas tremedeiras. Vejam a bola de neve: uma abstinência de álcool, por exemplo, pode causar uma abstinência de caneta, que pode causar uma abstinência de papel, que pode causar uma abstinência de caderno, que pode causar uma abstinência de papelaria, que pode causar uma abstinência de rua, que pode causar uma abstinência de gentes, que pode causar uma abstinência de comida, que pode causar uma abstinência de vida e por fim uma abstinência de abstinência. Creiam que tudo isso pode passar pela cabeça de um abstêmio em questão de segundos e ser a mola propulsora para a primeira dose. A Vida é um prato cheio pra isso. Mas serei determinado e enfrentarei as abstinências e as surrealidades. Você lerá. Na verdade é só sair pra rua e já estará lendo meu blog, porque existem coisas muito mais surreais, delirantes, maravilhosas e assustadoramente alucinógenas do que um elefante cor de rosa nos desvãos da existência.

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