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Foto de Kathleen Kunath . Rodrigo Caffer [Ele]

segunda-feira, 20 de abril de 2015

5ª Semana: Ensimesmamentos


                  Essa palavra por si só provavelmente dirá muito mais coisas do que eu possa vir a escrever nesse texto: ensimesmamentos. O que me ensinam os meus diálogos comigo mesmo? Tenho cavoucado fundo nesse arenoso terreno e só acho lâmpadas velhas sem gênios dentro. Mesmo assim invento perspectivas porque acredito que seguir vivendo ainda me levará a algum lugar. Quando bebia acreditava mais, ou me enganava mais, sei lá, mas era mais divertido. Por outro lado não estaria escrevendo isso se estivesse bebendo com o vigor de antes e talvez nunca tivesse me dado conta que desacreditar também pode ser bem construtivo. Antes desse título, pensei em “crenças” depois em “frustrações” e na bifurcação dos caminhos vim parar aqui. Sério, tenho desacreditado em muitas coisas, mas com muito mais embasamento. Também entendi que meu convívio com as pessoas tem sido complicado, não porque baseado na minha descrença nos seres, - ainda acredito em alguns – mas porque tenho compreendido suas fraquezas e desentendido as minhas. A equação é simples: menos álcool, menos convívio social, mais tempo de solidão igual a mais enfrentamento comigo mesmo. Vixe, esse blog, além de uma grande quantidade de delírios, vai ser um auto análise da porra. Muitas das minhas letras de música também o são, então que assim seja. Voltando aos meus ensimesmamentos, ontem eu tive um diálogo profundo com minha própria imagem no espelho. Procurei perguntar com minha voz e responder pra mim mesmo com uma outra voz que fosse convincente de que quem estava respondendo as minhas indagações era o mais sincero dos meus eus. Depois de muitas perguntas com respostas meio nebulosas sobre minhas frustrações com os meus projetos, com as pessoas, sobre como seguir em frente sem o embelezamento do álcool, sobre como manter o foco tendo que fazer mil coisas que querem a quase todo instante me tirar do foco, sobre como persistir com os exercícios para baixar o colesterol e sobre mais um tanto de coisas que estão me inquietando, vou resumir o monobiálogo com meu eu mais maduro e consciente que estava na imagem do espelho:
Eu: - Tá, mas afinal quem sou eu?
Eu-espelho: - Você é isso que está vendo refletido no espelho, só que piorado.
Eu: - Então quer dizer que eu nunca vou ser essa pessoa plena que você é?
Eu-espelho:  - Isso.

Mandei o meu eu maduro e consciente se fudê e quebrei o espelho. Aquele eu não existe mais e provavelmente você me encontre escabelado pela rua com os mesmos ensimesmamentos de antes.                    

segunda-feira, 13 de abril de 2015

4ª Semana: Manifestações


Provavelmente em decorrência dos meus delírios é que tenho perdido um pouco a noção do tempo. Este texto era para ter sido feito e publicado na semana passada, mas se o tivesse feito, não teria tido a chance de um flash back psicodélico que tive vendo televisionadamente as manifestações. Minha deturpada visão me trouxe num fluxo temporal para um jogo da seleção brasileira contra uns jogadores que gostam de chucrute, mas que se esbaldaram no acarajé e que teve um final trágico para nós. Mais uma vez estavam todos lá na rua de verde e amarelo by CBF indo para um estádio no qual nunca chegariam. Todos apáticos com rompantes esparsos de fúria para qualquer coisa vermelha que surgisse. Tem alguns que até agora estão lá xingando um pobre hidrante vermelho de baixa estatura que nem pode se mover para fugir da turba ensandecida. A citada apatia continuava mesmo com a euforia envernizada dos repórteres dos noticiários que, embora não tenham entrevistado uma pessoa sequer durante toda a cobertura, falavam das causas e das palavras de ordem daquele pacifico e democrático evento de manifestação dominical. Para mim isso já era um delírio: manifestação domingo? Eu olhava aquilo tudo no tubo de imagem a espera que algo grandioso acontecesse. Afinal de contas, eram câmeras aéreas mostrando a marcha patriota e dando insistentemente números que não condiziam com o que se via de pessoas nas ruas, mas, obviamente, isso só poderia ser fruto de minhas abstêmias alucinações. É. Porque além de ver criaturas pedindo intervenção militar, mulheres nuas e cartazes que ameaçavam a mais concreta das coerências, eu juro que vi o homem aranha jogando sua teia pra pular de prédio em prédio em sobrevoos rasantes sobre a multidão verde-amarela que gritava para ele num frenesi só comparado ao de fãs adolescentes de algum astro pop. Agora começava a ficar interessante: um super herói que raptaria a presidente e salvaria o país era tudo que os domingueiros queriam. Logo após vi um roedor espadachim tilintando sua espada ao lado de um Minotauro e de um Leão sábio contra uma coisa que parecia ser uma ciclovia em pé.  Peguei a pipoca, mas minha alegria durou pouco. Um amigo dilatou minhas alucinadas pupilas e desvendou o delírio: o homem aranha e os animais falantes e guerreiros eram, respectivamente, os personagens dos filmes “O espetacular Homem Aranha”  e “As Crônicas de Nárnia” que estavam sendo apresentados nos intervalos da cobertura das manifestações. Tristemente, deixei a pipoca de lado e caí no sono. Acordei sobressaltado na hora do pesadelo onde a Alemanha fazia o oitavo gol contra o escrete canarinho. Na televisão a torcida verde amarela continuava sua já esvaziada caminhada rumo a um estádio ao qual nunca chegariam.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

3ª Semana: Economias



Esse blog tá indo por um caminho de diário. Confissões seria a palavra mais adequada. Pois que o seja. Semana passada não fiz o texto que estou fazendo agora. O tempo é de vacas magras e estive correndo por outras searas que não a música, oficina e meus escritos para arranjar um qualquer e isso me causou um cansaço físico que roubou minhas ideias. Mas aqui estou eu travez. Como o dimdim anda curto, estive pensando em maneiras de economizar - logo eu que tenho tanto talento para gastar dinheiro - e descobri um modo maravilhoso de concretizar meu projeto. A lógica é a seguinte: já que vivemos em mundo onde toda hora estão querendo nos vender alguma coisa, seja na TV, na internet ou na rua, tenho atendido aos apelos dos meus desejos, mas segundos antes de efetuar a compra de qualquer coisa que deseje, eu mentalizo uma sensação de enjoo daquilo que estava quase comprando e começo a cobiçar outra coisa, coisa esta que vou acabar desistindo de comprar quando estiver quase comprando e assim sucessivamente. O resultado disso é surpreendente. Dias atrás, por exemplo, eu estava com dez reais no bolso e acabei economizando mais de dez mil reais quando quase comprei um laptop, uma bicicleta, um lanche de uma famosa casa de fast food, um tênis, uma passagem de avião, um violão caro, um carro barato, um micro ondas, umas dez garrafas de vinho e uns maços de palheiros. Nesse ritmo vou acabar ficando milionário. É viciante, pois a cada coisa quase comprada mais e mais coisas eu quero comprar e assim meus créditos só vão aumentando. Vou acabar quase comprando o mundo todo. Depois a lua e o sol, assim que tiverem um preço. O único problema de ficar rico deste jeito é que dá uma fome enorme. Você vai à cozinha procurar alguma coisa pra comer na geladeira e não tem nada pra comer, nem geladeira. Contabilize o preço de uma geladeira usada e um prato de arroz, feijão salada e bife e some ao seu montante estratosférico. A vida segue assim por aqui, sou um emergente faminto, elegante de tão magro e com 10 reais no bolso.