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Foto de Kathleen Kunath . Rodrigo Caffer [Ele]

quinta-feira, 2 de julho de 2015

8ª Semana: Manobras


Eu, o Delírio, não tenho folga nos tempos atuais. A qualquer momento me chamam as pressas e lá vou eu. Agora ficou na moda me chamarem para manobras. Motoristas manobrando seus carros para estacionar em vagas onde não cabe nem um carrinho de mão; manobras intermitentes dos personagens das novelas para incriminar outros personagens, manobrismos malabáricos para não se parar de mamar nas grandes tetas estatais ou privadas. Enfim, um mar de manobras. Porém, a última manobra que participei foi digna de se fazer um filme. Prender adolescentes bandidos em prisões exclusivas para que mocinhos de bem façam justiça e, principalmente, ganhem muito dinheiro. Só que para isso precisavam que uma lei fosse aprovada e começaram uma campanha ferrenha para que essa lei fosse aprovada. Manobras e mais manobras: molhar a mão de votantes, refazer votações até a lei fosse aprovada, nem que fosse na marra. Precisavam do apoio da opinião pública e formaram seu rebanho com pessoas que são indignados com a atual corrupção (que antes não existia, era só um Delírio), que tiveram seus parentes assassinados por menores, por disseminadores da ideia de que adolescente bandido bom é adolescente bandido morto – desde que não seja nosso filho. Os indecisos foram convencidos quando surgiu uma onda de esfaqueamentos ao redor de uma famosa lagoa. Tudo isso sempre com o apoio do sorriso cínico dos apresentadores de noticiários da grande mídia. Rebanho formado, circo armado, votação feita e puts, não aprovaram a lei. Nada que uma manobra de craque ou um golpe fatal não resolvesse: uma nova votação e pimba! Lá estava a lei aprovada. Finalmente! Gritaram os arautos da justiça e os todos que já estavam de saco cheio de verem seus sacos vazios e terem a confirmação que se encheriam de dinheiro novamente. Já tramavam agora para aprovarem a lei de Maioridade Fetal, para pegar fetos de mães ou pais de passado criminoso e colocá-los em provetas gradeadas para que assim que dessem o primeiro choro já estivessem devidamente engaiolados, presos para livrar a sociedade de futuros criminosos. Publicaram essa ideia nas redes sociais e já contam com mais de um milhão de likes.


Por sorte, nada disso aconteceu e voltei pra casa deixando os homens que aprovam leis discutindo importantes de questões de educação e saúde para salvar meninos que ainda não entraram no crime ou que querem sair dele. Ufa! As manobras acima foram só um Delírio.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

7ª Semana: Enterros


                  Creio que o Sandro Dornelles já falou pra vocês que a partir desta semana eu quem assumo os escritos deste blog. Acredito que todo mundo já me conheça, mas vou me apresentar: eu sou o Delirium. O senhor Wikipédiavaporub com sua desobstruída voz pode me apresentar melhor: “o termo delirium deriva do latim ‘delirare’ que significa “estar fora do lugar”, mas atualmente usado com o sentido de “estar confuso, distorcendo a realidade, fora de si”“. Podem me chamar de Delírio. No decorrer dos textos que eu escreverei vocês poderão notar que estou mais presente no dia a dia do se imagina e isso deve ao fato, creio eu, dos tempos em que vivemos. Bom, vamos ao que interessa.

                 Tenho me sentido um astro pop pelo tanto que apareço na televisão, embora ninguém me reconheça. As câmeras estão em todos os lugares e assim filmam coisas dignas do efeito do mais potente dos alucinógenos. Filmam (e atrapalham) os desfiles das escolas de samba, com fios derrubando porta-bandeiras para depois darem um close em suas lágrimas; filmam a boca, a língua e até o obturação do dente do craque durante o jogo para demonstrarem no tira-teima a trajetória e a velocidade da cusparada que ele deu na cara do outro ou para fazerem a leitura labial das palavras de amor que o jogador fala para o juiz; enfim, tem câmera até dentro de vaso sanitário pra ver com que expressão o coco sai do anus da mais nova namoradinha do país. Já disse o poeta que mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e nos resta conviver com ou sair da mira quase infalível das câmeras e nem estou falando das escondidas. Delírios da modernidade a parte, hoje contracenei em um enterro televisionado. O triste falecimento de um jovem astro pop virou o ponto alto do ibope do dia. Abro aqui um parêntese para falar que meu gosto musical não vem ao caso, visto que tanto uma MPB de qualidade (duvidosa) pseudo blasê metida a adolescente ou um ritmo dançante do momento que faz trilha pra pegação, pouco ou quase nada me dizem e fazer juízo de valor não me interessa, pois as músicas de todos os tipos estão aí e cada um que ouça o que acha que merece. Voltemos à história. Filmaram o velório do rapaz, a tristeza da família e dos fãs, tudo tranquilo. Só que quando o caminhão de bombeiro saiu com o corpo do artista em direção ao cemitério e era seguido por uma multidão, uma emissora de tv conseguiu botar um repórter junto com os parentes da vítima em cima do caminhão, filmando em tempo real com uma câmera de celular a dor dos parentes com a mão no caixão e comentando cada ruga de consternação da entes queridos do falecido. Isso já era uma desnecessária invasão de privacidade, mas isso era tudo uma preparação para que eu entrasse em cena. Enquanto o caminhão fazia seu trajeto até o cemitério, outro repórter dava notícias em cima de um monte de terra com pás cravadas ao seu redor e ao fundo a cova aberta onde seria enterrado o corpo. Aí eu já era coadjuvante, mas tinham um papel muito maior reservado pra mim. Quando chegou o caminhão, o féretro foi colocado ao lado da cova. Nesse instante abriram a tampa do caixão e o repórter se acomodou ao lado do defunto munido de uma minúscula câmera e microfone, mesmo contra a vontade dos familiares. Tamparam o caixão e começaram a descê-lo pela cova. O repórter ia narrando cada sensação de dentro do caixão. Para quem assistia a transmissão estava tudo escuro, mas ainda se ouvia a voz do repórter: “realmente é muito apertado aqui e agora vocês podem ouvir o som de cada pá de terra que cai sobre o esquife”, em seguida se ouviu a respiração ofegante e desesperada do repórter, o som de unhas raspando a tampa do caixão e finalmente o silêncio. Todos reconheceram e elogiaram o trabalho do repórter, a família do artista já tinha sido delicadamente retirada do enterro para que não atrapalhasse a transmissão e minutos depois tudo voltou a normalidade.

domingo, 21 de junho de 2015

6ª Semana: Retornos



Cá estou eu de volta, desculpem-me pelo lapso temporal. Na onda do delírio abstêmio fiquei mais de mês sem publicar neste blog cuja proposta são textos semanais. Juro pra vocês que na minha cabeça eu os estava escrevendo semanalmente. Confesso também que meus últimos textos aqui estavam com um tom de diário que não são minha intenção, embora sejam benéficos para minha autoanálise. Enfim, estou aqui para abdicar dos escritos desta página e deixa-los exclusivamente na mão do Delirium. Já psicografei a DOR, pois então que o faça também com o ele. Assim ele fica mais a vontade e eu também. Por falar na dona DOR, ela  sentiu saudades mesmo de mim e retornou com tudo, pois faz mais de mês que não larga do meu pé: estiramentos, aftas, um banco quebrado que tirou o escalpo da minha panturrilha que não estava estirada, torcicolo em todos os músculos das costas, queimaduras nos braços ao tirar os pães do forno e mais uns pequenos cortes nas dedos das mãos e dos pés. Apesar disso, não fico magoado com ela porque quando retorna vem pra me fazer repensar muitas coisas e diminuir a marcha, sem, no entanto, estancar. Agora que a DOR já está de malas prontas, que venha o Delírio. E ele voltou com tudo também. Além de roubar a caneta da minha mão, prometeu textos a altura de minha abstinência. Sim, eu continuo abstêmio para surpresa dos médicos, amigos e diabinhos tentadores! Então é isso, a partir de hoje ele atualizará os textos que deixei pendentes, então vocês provavelmente lerão mais de um texto por semana até a coisa se normalizar. Como disse o Frederico, querendo ou não, estamos sujeitos à lei do Eterno Retorno, do bem e do mal, da angústia e do prazer, portanto espero que o meu retorno seja mais terno que o destes últimos meses que não foram nem um pouco ternos. Por falar em terno, vou sair pra fazer uma fezinha num terno de grupo. Isso sim parece ser um eterno retorno sem cura em minha vida, mas atentem para o sentido figurado da oração: apostando sempre na vida.  Com a devida cara de pau necessária para tanto. Brigado.


segunda-feira, 20 de abril de 2015

5ª Semana: Ensimesmamentos


                  Essa palavra por si só provavelmente dirá muito mais coisas do que eu possa vir a escrever nesse texto: ensimesmamentos. O que me ensinam os meus diálogos comigo mesmo? Tenho cavoucado fundo nesse arenoso terreno e só acho lâmpadas velhas sem gênios dentro. Mesmo assim invento perspectivas porque acredito que seguir vivendo ainda me levará a algum lugar. Quando bebia acreditava mais, ou me enganava mais, sei lá, mas era mais divertido. Por outro lado não estaria escrevendo isso se estivesse bebendo com o vigor de antes e talvez nunca tivesse me dado conta que desacreditar também pode ser bem construtivo. Antes desse título, pensei em “crenças” depois em “frustrações” e na bifurcação dos caminhos vim parar aqui. Sério, tenho desacreditado em muitas coisas, mas com muito mais embasamento. Também entendi que meu convívio com as pessoas tem sido complicado, não porque baseado na minha descrença nos seres, - ainda acredito em alguns – mas porque tenho compreendido suas fraquezas e desentendido as minhas. A equação é simples: menos álcool, menos convívio social, mais tempo de solidão igual a mais enfrentamento comigo mesmo. Vixe, esse blog, além de uma grande quantidade de delírios, vai ser um auto análise da porra. Muitas das minhas letras de música também o são, então que assim seja. Voltando aos meus ensimesmamentos, ontem eu tive um diálogo profundo com minha própria imagem no espelho. Procurei perguntar com minha voz e responder pra mim mesmo com uma outra voz que fosse convincente de que quem estava respondendo as minhas indagações era o mais sincero dos meus eus. Depois de muitas perguntas com respostas meio nebulosas sobre minhas frustrações com os meus projetos, com as pessoas, sobre como seguir em frente sem o embelezamento do álcool, sobre como manter o foco tendo que fazer mil coisas que querem a quase todo instante me tirar do foco, sobre como persistir com os exercícios para baixar o colesterol e sobre mais um tanto de coisas que estão me inquietando, vou resumir o monobiálogo com meu eu mais maduro e consciente que estava na imagem do espelho:
Eu: - Tá, mas afinal quem sou eu?
Eu-espelho: - Você é isso que está vendo refletido no espelho, só que piorado.
Eu: - Então quer dizer que eu nunca vou ser essa pessoa plena que você é?
Eu-espelho:  - Isso.

Mandei o meu eu maduro e consciente se fudê e quebrei o espelho. Aquele eu não existe mais e provavelmente você me encontre escabelado pela rua com os mesmos ensimesmamentos de antes.                    

segunda-feira, 13 de abril de 2015

4ª Semana: Manifestações


Provavelmente em decorrência dos meus delírios é que tenho perdido um pouco a noção do tempo. Este texto era para ter sido feito e publicado na semana passada, mas se o tivesse feito, não teria tido a chance de um flash back psicodélico que tive vendo televisionadamente as manifestações. Minha deturpada visão me trouxe num fluxo temporal para um jogo da seleção brasileira contra uns jogadores que gostam de chucrute, mas que se esbaldaram no acarajé e que teve um final trágico para nós. Mais uma vez estavam todos lá na rua de verde e amarelo by CBF indo para um estádio no qual nunca chegariam. Todos apáticos com rompantes esparsos de fúria para qualquer coisa vermelha que surgisse. Tem alguns que até agora estão lá xingando um pobre hidrante vermelho de baixa estatura que nem pode se mover para fugir da turba ensandecida. A citada apatia continuava mesmo com a euforia envernizada dos repórteres dos noticiários que, embora não tenham entrevistado uma pessoa sequer durante toda a cobertura, falavam das causas e das palavras de ordem daquele pacifico e democrático evento de manifestação dominical. Para mim isso já era um delírio: manifestação domingo? Eu olhava aquilo tudo no tubo de imagem a espera que algo grandioso acontecesse. Afinal de contas, eram câmeras aéreas mostrando a marcha patriota e dando insistentemente números que não condiziam com o que se via de pessoas nas ruas, mas, obviamente, isso só poderia ser fruto de minhas abstêmias alucinações. É. Porque além de ver criaturas pedindo intervenção militar, mulheres nuas e cartazes que ameaçavam a mais concreta das coerências, eu juro que vi o homem aranha jogando sua teia pra pular de prédio em prédio em sobrevoos rasantes sobre a multidão verde-amarela que gritava para ele num frenesi só comparado ao de fãs adolescentes de algum astro pop. Agora começava a ficar interessante: um super herói que raptaria a presidente e salvaria o país era tudo que os domingueiros queriam. Logo após vi um roedor espadachim tilintando sua espada ao lado de um Minotauro e de um Leão sábio contra uma coisa que parecia ser uma ciclovia em pé.  Peguei a pipoca, mas minha alegria durou pouco. Um amigo dilatou minhas alucinadas pupilas e desvendou o delírio: o homem aranha e os animais falantes e guerreiros eram, respectivamente, os personagens dos filmes “O espetacular Homem Aranha”  e “As Crônicas de Nárnia” que estavam sendo apresentados nos intervalos da cobertura das manifestações. Tristemente, deixei a pipoca de lado e caí no sono. Acordei sobressaltado na hora do pesadelo onde a Alemanha fazia o oitavo gol contra o escrete canarinho. Na televisão a torcida verde amarela continuava sua já esvaziada caminhada rumo a um estádio ao qual nunca chegariam.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

3ª Semana: Economias



Esse blog tá indo por um caminho de diário. Confissões seria a palavra mais adequada. Pois que o seja. Semana passada não fiz o texto que estou fazendo agora. O tempo é de vacas magras e estive correndo por outras searas que não a música, oficina e meus escritos para arranjar um qualquer e isso me causou um cansaço físico que roubou minhas ideias. Mas aqui estou eu travez. Como o dimdim anda curto, estive pensando em maneiras de economizar - logo eu que tenho tanto talento para gastar dinheiro - e descobri um modo maravilhoso de concretizar meu projeto. A lógica é a seguinte: já que vivemos em mundo onde toda hora estão querendo nos vender alguma coisa, seja na TV, na internet ou na rua, tenho atendido aos apelos dos meus desejos, mas segundos antes de efetuar a compra de qualquer coisa que deseje, eu mentalizo uma sensação de enjoo daquilo que estava quase comprando e começo a cobiçar outra coisa, coisa esta que vou acabar desistindo de comprar quando estiver quase comprando e assim sucessivamente. O resultado disso é surpreendente. Dias atrás, por exemplo, eu estava com dez reais no bolso e acabei economizando mais de dez mil reais quando quase comprei um laptop, uma bicicleta, um lanche de uma famosa casa de fast food, um tênis, uma passagem de avião, um violão caro, um carro barato, um micro ondas, umas dez garrafas de vinho e uns maços de palheiros. Nesse ritmo vou acabar ficando milionário. É viciante, pois a cada coisa quase comprada mais e mais coisas eu quero comprar e assim meus créditos só vão aumentando. Vou acabar quase comprando o mundo todo. Depois a lua e o sol, assim que tiverem um preço. O único problema de ficar rico deste jeito é que dá uma fome enorme. Você vai à cozinha procurar alguma coisa pra comer na geladeira e não tem nada pra comer, nem geladeira. Contabilize o preço de uma geladeira usada e um prato de arroz, feijão salada e bife e some ao seu montante estratosférico. A vida segue assim por aqui, sou um emergente faminto, elegante de tão magro e com 10 reais no bolso.

terça-feira, 24 de março de 2015

2ª Semana: Lixos




É conhecido de todos que tudo pode virar lixo, mas eu digo que também o lixo pode virar tudo. Em tempos de reciclagem isso não é nenhum achado. Porém quando digo tudo, é tudo mesmo: comida, transporte, remédio, instrumentos dos mais variados, cama e, acreditem, até gente. Sim, dia desses vinha eu pela rua, alta madrugada, e vi um saco enorme de lixo se mover. A princípio não acreditei, e concluí ser fruto de um breve delírio causado pelo cansaço. Mais uns passos e escuto um “psiu!”. Não tinha ninguém na rua, ninguém nas janelas das casas. Olhei para o lixo e ele se levantou e veio caminhando na minha direção. Fiquei pasmo e imóvel. Ele disse para eu não ter medo e que eu o escutasse, pois ele queria muito falar comigo. Atrás dele havia um séquito de ratos, animais que por motivos que ainda não descobri, me causam um pavor gigantesco. Todos eles usavam gravatinhas feitas com restos de guardanapos de papel. Passado o primeiro susto pedi ao Sr. Lixo que mandasse os ratos dar uma volta e expliquei o meu motivo. Ele então ordenou que os roedores fossem dar uma volta e eles saíram todos em fila indiana guinchando coisas uns para os outros. Passado o segundo susto, falei para o lixo que era todo ouvidos. Antes de me falar as coisas mais maravilhosas e inacreditáveis, de como chegara até ali, de seus antepassados e tudo mais, tirou de dentro de si uma garrafa de plástico com um resto de cachaça. Agradeci, mas falei que não estava bebendo e brinquei que esse encontro insólito com um lixo falante poderia muito bem ser fruto dessa abstinência. Ele riu e começou a falar. Não sei quantas horas fiquei ali ouvindo sua história e a relação dos lixos com nós, humanos. Desde que o nomadismo foi acabando e os homens começaram a se fixar em um mesmo local, plantar e criar animais, a acumularem lixo, juntar bichos, até surgirem as primeiras doenças que até hoje geram a má fama do lixo. Entendi que a coisa não era bem assim e que o lixo é um filho nosso que criamos com desleixo, maus tratos e acabamos sempre deixando na rua para que outros cuidem dele. Minutos antes do Sr. Lixo se disfarçar de lixo comum no meio de outros lixos para poder ser carregado pelo caminhão até um aterro sanitário ou um lixão para dar uma palestra para outros lixos que o aguardavam, ele me agradeceu num tamanho nível emotivo que uma lágrima de chorume rolou pelo seu rosto feito de pote de sorvete, vidro de remédio, pilhas, saco de pão e mais outros resíduos que compunham sua matéria. Também não pude conter a emoção e nos abraçamos. Fiquem mais uma vez perplexo, pois ele não tinha cheiro algum. Quando seu transporte chegou, o homem o jogou para dentro do caminhão e lá foi meu mais novo amigo rumo a sua palestra. Tive um certo pavor  em pensar que além dele haviam outros lixos gentes e que poderiam se rebelar contra nós, mas me aliviei pois se fossem guiados pelo Sr. Lixo estaríamos a salvo. Continuei indo em direção a minha casa e lá do final da rua um conhecido meu, humano, gritou pra mim: “Liiiiiiiiiixo!” que é assim que eu e meus amigos carinhosamente nos chamamos e cumprimentamos.



sexta-feira, 20 de março de 2015

1ª Semana: Abstinências



Primeiramente quero explicar o porquê deste novo blog. Todo mundo que me conhece sabe o quanto gosto de tomar uma cerveja, seja no bar pra conversar, seja pra ouvir música, seja pra compor, enfim, seja pra cerveja tô lá. Melhor, tava. Talvez eu tenha cometido alguns exageros, admito. Meu fígado espartano também admitiu, mas meu coração, não. Falo do coração físico, o músculo, não do coração metafórico das canções, dos sofreres, dos quereres, dos rasgares e dos despedaçares. Fato é que entrei em fase de abstinência, cortei o cigarro, cortei a bebida, mas ainda não cortei os pulsos. E nem pretendo. Ordens médicas em minha atual conjuntura devem ser seguidas a risca e assim estou fazendo. Agora de uma coisa podem ter certeza: viver nesse mundo, sem drogas, não é para qualquer um. Para uma pessoa que sofre de ansiedade múltipla dos órgãos como eu então é dose pra elefante, só que sem dose nenhuma. Mas como diria o personagem suassuano, nunca fiquei sem beber, nunca fiquei sem fumar, muito menos os dois ao mesmo tempo, mas se tem que ficar, eu fico. Isso também tá parecendo frase de Imperador às margens do Ipiranga. Ipiranga que também vinha sofrendo de abstinência de água, mas não resistiu e acabou tomando uma overdose.  Se bem que Ipiranga e “eu fico” são dois eventos diferentes. Taí outro sintoma  da abstinência: fala desorganizada e ininteligível. Curioso é que assim que tenho visto as coisas nestes meus abstêmios tempos, de forma desorganizada, ininteligível, em meio a alucinações táteis, auditivas e visuais, e confesso que não sei se o surreal vem do meu olhar de alucinação abstêmia ou se o surreal é o real enquanto sóbrio. Conclui cá com meus botões que o mundo sofre de abstinência de várias coisas e que, portanto, temos, eu e o mundo, uma coisa em comum. Pois meu blog será feito desse material: as consequências de uma manifestação mais intensa e complicada de abstinência também conhecida como Delirium Tremens. Semanalmente, até a última semana do ano, entornarei textos sobre as minhas abstinências, as abstinências do mundo ou sobre qualquer outra alucinação que minha caneta desejar que apareça para evidenciar a estranheza do banal ou o banal da estranheza. Na verdade que as minhas teclas desejarem, porque caneta seria complexo devido as esporádicas tremedeiras. Vejam a bola de neve: uma abstinência de álcool, por exemplo, pode causar uma abstinência de caneta, que pode causar uma abstinência de papel, que pode causar uma abstinência de caderno, que pode causar uma abstinência de papelaria, que pode causar uma abstinência de rua, que pode causar uma abstinência de gentes, que pode causar uma abstinência de comida, que pode causar uma abstinência de vida e por fim uma abstinência de abstinência. Creiam que tudo isso pode passar pela cabeça de um abstêmio em questão de segundos e ser a mola propulsora para a primeira dose. A Vida é um prato cheio pra isso. Mas serei determinado e enfrentarei as abstinências e as surrealidades. Você lerá. Na verdade é só sair pra rua e já estará lendo meu blog, porque existem coisas muito mais surreais, delirantes, maravilhosas e assustadoramente alucinógenas do que um elefante cor de rosa nos desvãos da existência.