Provavelmente
em decorrência dos meus delírios é que tenho perdido um pouco a noção do tempo.
Este texto era para ter sido feito e publicado na semana passada, mas se o
tivesse feito, não teria tido a chance de um flash back psicodélico que tive
vendo televisionadamente as manifestações. Minha deturpada visão me trouxe num
fluxo temporal para um jogo da seleção brasileira contra uns jogadores que
gostam de chucrute, mas que se esbaldaram no acarajé e que teve um final
trágico para nós. Mais uma vez estavam todos lá na rua de verde e amarelo by
CBF indo para um estádio no qual nunca chegariam. Todos apáticos com rompantes
esparsos de fúria para qualquer coisa vermelha que surgisse. Tem alguns que até
agora estão lá xingando um pobre hidrante vermelho de baixa estatura que nem
pode se mover para fugir da turba ensandecida. A citada apatia continuava mesmo
com a euforia envernizada dos repórteres dos noticiários que, embora não tenham
entrevistado uma pessoa sequer durante toda a cobertura, falavam das causas e
das palavras de ordem daquele pacifico e democrático evento de manifestação
dominical. Para mim isso já era um delírio: manifestação domingo? Eu olhava
aquilo tudo no tubo de imagem a espera que algo grandioso acontecesse. Afinal de
contas, eram câmeras aéreas mostrando a marcha patriota e dando insistentemente
números que não condiziam com o que se via de pessoas nas ruas, mas,
obviamente, isso só poderia ser fruto de minhas abstêmias alucinações. É. Porque
além de ver criaturas pedindo intervenção militar, mulheres nuas e cartazes que
ameaçavam a mais concreta das coerências, eu juro que vi o homem aranha jogando
sua teia pra pular de prédio em prédio em sobrevoos rasantes sobre a multidão verde-amarela
que gritava para ele num frenesi só comparado ao de fãs adolescentes de algum
astro pop. Agora começava a ficar interessante: um super herói que raptaria a
presidente e salvaria o país era tudo que os domingueiros queriam. Logo após vi
um roedor espadachim tilintando sua espada ao lado de um Minotauro e de um Leão
sábio contra uma coisa que parecia ser uma ciclovia em pé. Peguei a pipoca, mas minha alegria durou
pouco. Um amigo dilatou minhas alucinadas pupilas e desvendou o delírio: o homem
aranha e os animais falantes e guerreiros eram, respectivamente, os personagens
dos filmes “O espetacular Homem Aranha” e “As Crônicas de Nárnia” que estavam sendo
apresentados nos intervalos da cobertura das manifestações. Tristemente, deixei
a pipoca de lado e caí no sono. Acordei sobressaltado na hora do pesadelo onde
a Alemanha fazia o oitavo gol contra o escrete canarinho. Na televisão a
torcida verde amarela continuava sua já esvaziada caminhada rumo a um estádio ao qual nunca chegariam.
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