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Foto de Kathleen Kunath . Rodrigo Caffer [Ele]

quinta-feira, 25 de junho de 2015

7ª Semana: Enterros


                  Creio que o Sandro Dornelles já falou pra vocês que a partir desta semana eu quem assumo os escritos deste blog. Acredito que todo mundo já me conheça, mas vou me apresentar: eu sou o Delirium. O senhor Wikipédiavaporub com sua desobstruída voz pode me apresentar melhor: “o termo delirium deriva do latim ‘delirare’ que significa “estar fora do lugar”, mas atualmente usado com o sentido de “estar confuso, distorcendo a realidade, fora de si”“. Podem me chamar de Delírio. No decorrer dos textos que eu escreverei vocês poderão notar que estou mais presente no dia a dia do se imagina e isso deve ao fato, creio eu, dos tempos em que vivemos. Bom, vamos ao que interessa.

                 Tenho me sentido um astro pop pelo tanto que apareço na televisão, embora ninguém me reconheça. As câmeras estão em todos os lugares e assim filmam coisas dignas do efeito do mais potente dos alucinógenos. Filmam (e atrapalham) os desfiles das escolas de samba, com fios derrubando porta-bandeiras para depois darem um close em suas lágrimas; filmam a boca, a língua e até o obturação do dente do craque durante o jogo para demonstrarem no tira-teima a trajetória e a velocidade da cusparada que ele deu na cara do outro ou para fazerem a leitura labial das palavras de amor que o jogador fala para o juiz; enfim, tem câmera até dentro de vaso sanitário pra ver com que expressão o coco sai do anus da mais nova namoradinha do país. Já disse o poeta que mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e nos resta conviver com ou sair da mira quase infalível das câmeras e nem estou falando das escondidas. Delírios da modernidade a parte, hoje contracenei em um enterro televisionado. O triste falecimento de um jovem astro pop virou o ponto alto do ibope do dia. Abro aqui um parêntese para falar que meu gosto musical não vem ao caso, visto que tanto uma MPB de qualidade (duvidosa) pseudo blasê metida a adolescente ou um ritmo dançante do momento que faz trilha pra pegação, pouco ou quase nada me dizem e fazer juízo de valor não me interessa, pois as músicas de todos os tipos estão aí e cada um que ouça o que acha que merece. Voltemos à história. Filmaram o velório do rapaz, a tristeza da família e dos fãs, tudo tranquilo. Só que quando o caminhão de bombeiro saiu com o corpo do artista em direção ao cemitério e era seguido por uma multidão, uma emissora de tv conseguiu botar um repórter junto com os parentes da vítima em cima do caminhão, filmando em tempo real com uma câmera de celular a dor dos parentes com a mão no caixão e comentando cada ruga de consternação da entes queridos do falecido. Isso já era uma desnecessária invasão de privacidade, mas isso era tudo uma preparação para que eu entrasse em cena. Enquanto o caminhão fazia seu trajeto até o cemitério, outro repórter dava notícias em cima de um monte de terra com pás cravadas ao seu redor e ao fundo a cova aberta onde seria enterrado o corpo. Aí eu já era coadjuvante, mas tinham um papel muito maior reservado pra mim. Quando chegou o caminhão, o féretro foi colocado ao lado da cova. Nesse instante abriram a tampa do caixão e o repórter se acomodou ao lado do defunto munido de uma minúscula câmera e microfone, mesmo contra a vontade dos familiares. Tamparam o caixão e começaram a descê-lo pela cova. O repórter ia narrando cada sensação de dentro do caixão. Para quem assistia a transmissão estava tudo escuro, mas ainda se ouvia a voz do repórter: “realmente é muito apertado aqui e agora vocês podem ouvir o som de cada pá de terra que cai sobre o esquife”, em seguida se ouviu a respiração ofegante e desesperada do repórter, o som de unhas raspando a tampa do caixão e finalmente o silêncio. Todos reconheceram e elogiaram o trabalho do repórter, a família do artista já tinha sido delicadamente retirada do enterro para que não atrapalhasse a transmissão e minutos depois tudo voltou a normalidade.

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