Creio que o Sandro Dornelles
já falou pra vocês que a partir desta semana eu quem assumo os escritos deste
blog. Acredito que todo mundo já me conheça, mas vou me apresentar: eu sou o
Delirium. O senhor Wikipédiavaporub com sua desobstruída voz pode me apresentar
melhor: “o termo delirium deriva do latim ‘delirare’ que significa “estar fora
do lugar”, mas atualmente usado com o sentido de “estar confuso, distorcendo a
realidade, fora de si”“. Podem me chamar de Delírio. No decorrer dos textos que
eu escreverei vocês poderão notar que estou mais presente no dia a dia do se
imagina e isso deve ao fato, creio eu, dos tempos em que vivemos. Bom, vamos ao
que interessa.
Tenho me sentido um astro pop
pelo tanto que apareço na televisão, embora ninguém me reconheça. As câmeras estão
em todos os lugares e assim filmam coisas dignas do efeito do mais potente dos
alucinógenos. Filmam (e atrapalham) os desfiles das escolas de samba, com fios
derrubando porta-bandeiras para depois darem um close em suas lágrimas; filmam
a boca, a língua e até o obturação do dente do craque durante o jogo para
demonstrarem no tira-teima a trajetória e a velocidade da cusparada que ele deu
na cara do outro ou para fazerem a leitura labial das palavras de amor que o
jogador fala para o juiz; enfim, tem câmera até dentro de vaso sanitário pra
ver com que expressão o coco sai do anus da mais nova namoradinha do país. Já
disse o poeta que mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e nos resta conviver
com ou sair da mira quase infalível das câmeras e nem estou falando das
escondidas. Delírios da modernidade a parte, hoje contracenei em um enterro
televisionado. O triste falecimento de um jovem astro pop virou o ponto alto do
ibope do dia. Abro aqui um parêntese para falar que meu gosto musical não vem
ao caso, visto que tanto uma MPB de qualidade (duvidosa) pseudo blasê metida a
adolescente ou um ritmo dançante do momento que faz trilha pra pegação, pouco
ou quase nada me dizem e fazer juízo de valor não me interessa, pois as músicas
de todos os tipos estão aí e cada um que ouça o que acha que merece. Voltemos à
história. Filmaram o velório do rapaz, a tristeza da família e dos fãs, tudo
tranquilo. Só que quando o caminhão de bombeiro saiu com o corpo do artista em
direção ao cemitério e era seguido por uma multidão, uma emissora de tv
conseguiu botar um repórter junto com os parentes da vítima em cima do
caminhão, filmando em tempo real com uma câmera de celular a dor dos parentes
com a mão no caixão e comentando cada ruga de consternação da entes queridos do
falecido. Isso já era uma desnecessária invasão de privacidade, mas isso era
tudo uma preparação para que eu entrasse em cena. Enquanto o caminhão fazia seu
trajeto até o cemitério, outro repórter dava notícias em cima de um monte de
terra com pás cravadas ao seu redor e ao fundo a cova aberta onde seria
enterrado o corpo. Aí eu já era coadjuvante, mas tinham um papel muito maior
reservado pra mim. Quando chegou o caminhão, o féretro foi colocado ao lado da
cova. Nesse instante abriram a tampa do caixão e o repórter se acomodou ao lado
do defunto munido de uma minúscula câmera e microfone, mesmo contra a vontade
dos familiares. Tamparam o caixão e começaram a descê-lo pela cova. O repórter ia
narrando cada sensação de dentro do caixão. Para quem assistia a transmissão
estava tudo escuro, mas ainda se ouvia a voz do repórter: “realmente é muito
apertado aqui e agora vocês podem ouvir o som de cada pá de terra que cai sobre
o esquife”, em seguida se ouviu a respiração ofegante e desesperada do repórter,
o som de unhas raspando a tampa do caixão e finalmente o silêncio. Todos reconheceram
e elogiaram o trabalho do repórter, a família do artista já tinha sido delicadamente
retirada do enterro para que não atrapalhasse a transmissão e minutos depois tudo
voltou a normalidade.
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